Levanto-me ainda meio
a sono, um tanto dormente de tão adormecido. Jogo rapidamente um pouco de água
para a cara para ver se acordo e visto a roupa. Dou um beijo na minha mulher e
como sempre temos a nossa habitual conversa:
- Amor, está a faltar
alguma coisa cá em casa?
- Trás pão para o
pequeno almoço, senão chegares a tempo lavas…
-…Eu sei, eu sei
‘lavo a loiça’.
- Amo-te.
- Até já [com um
sorriso de «espero ver-te outra vez»].
Vou ao quarto dos
miúdos, aconchego-lhes o lençol e com um beijinho na testa de boa noite, deixo
o anjo da guarda com eles.
Agora que “já estou
preparado” é esperar para ver o quão grande é o pesadelo desta vez.
Mal chego ao ponto de
encontro, ao ver caras conhecidas com expressões que não lhes conhecia, deduzo
que desta vez o monstro é grande.
A ansiedade
cresce. Não há grande tempo para conversas, até posso mesmo dizer que o
silêncio só é interrompido pelo toque da sirene.
Já em grupos seguimos
para os carros. Só tenho em mente uma coisa: 'quero voltar para casa quando
tudo acabar'. Mas nestas alturas uma pessoa mente se diz que só pensa numa
coisa.
COMO ASSIM SÓ PENSAS NUMA COISA?
Tens um monstro pela
frente, que não para só por deixares de ter medo, e que aumenta a cada segundo
que passa. Tens que olhar por ti, pelos teus, e pelos que não conheces. Tens de
cuidar de pessoas. Tens que proteger animais, casas, hortinhas e florestas.
Tens que te manter durante as próximas horas. E ainda tens que ir comprar pão
para o pequeno almoço, porque se chegares tarde... já sabes.
... É, na realidade,
uma farda pesa. Mas uma responsabilidade pesa muito mais.
Está na hora de parar
de pensar e começar a travar o inferno...
A porta bate. [PAI
!!!!]
Após umas 48 horas
sem tréguas cheguei a casa...
...
e sim, levava o pão para o pequeno almoço.

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