Quando do alto olhei aquela
imensidão percebi que tinha sido a coisa mais bela que alguma vez vi. Uma
perfeita junção de azuis, manchada aqui e ali, cheia de reflexos dos raios de
sol que nele incidem. Já não me lembrava o quão emocionante era ver como,
levemente, se enrolavam as ondas, para mais tarde deslizarem pela praia ou
embaterem contra os rochedos. A brisa carregada de liberdade enchia-me os
pulmões com esperança e alimentava-me os desejos de aventura. E numa pequena fracção de segundos consegui encontrar aquilo que todos procuram. Uma força
desmedida, imprevisível e rebelde que acompanha o bater do coração como um avô
que acompanha a avó já um tanto debilitada. Foi então que desci as escadas até
ao areal. Queria sentir aquele frio do contacto dos meus frágeis pés com aquela
água viajante e cenário de tantas histórias. Queria sentir que ainda estava
viva. Queria sentir um arrepio em cadeia percorrer-me.
Depois de
tanta quimioterapia e radioterapia decidi que desta vez vou eu escolher e
administrar o meu próprio remédio. Desde pequenina que a mamã dizia: "O
que arde, cura" então, só espero que arda. Porque sufoca, juro que sim,
saber que o corpo de uma pessoa se transforma num laboratório de experiências
químicas à espera de resultados físicos.
Já junto à
beira-mar sinto-me uma perfeita criança cujos medos não param nem as
consequências detêm. Começo a correr contra aquelas ondas até ficar com a água
pela cintura. E como está gelada a água! A água que já tirou o ar a muitos, e
já fez naufragar outros tantos agora dá-me a vida que guardou daqueles que aqui
a perderam. É como se injectasse uma injecção de adrenalina pelas minhas veias,
que me faz reagir, acordar. É como se todos os momentos que estavam perdidos
por aí, meios soltos, meios a divagar, se juntassem e começassem a tomar um
rumo ou a fazer sentido. Pela primeira vez desde há muito sei que vou fechar os
olhos hoje e que não vou ter medo de não acordar amanhã.
Abandono
então aquele mar e com as roupas todas molhadas vou saindo, pé ante pé,
sozinha… mas segura de mim mesma. Segura de que por mais que procuremos, por
mais caro que seja nada, mas mesmo nada, consegue superar um novo fôlego. Nada
consegue superar a alegria de um novo começo.
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