sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Fecho os olhos e imagino que (não) vivo mais ..

MULHER NA PRAIA.jpgQuando do alto olhei aquela imensidão percebi que tinha sido a coisa mais bela que alguma vez vi. Uma perfeita junção de azuis, manchada aqui e ali, cheia de reflexos dos raios de sol que nele incidem. Já não me lembrava o quão emocionante era ver como, levemente, se enrolavam as ondas, para mais tarde deslizarem pela praia ou embaterem contra os rochedos. A brisa carregada de liberdade enchia-me os pulmões com esperança e alimentava-me os desejos de aventura. E numa pequena fracção de segundos consegui encontrar aquilo que todos procuram. Uma força desmedida, imprevisível e rebelde que acompanha o bater do coração como um avô que acompanha a avó já um tanto debilitada. Foi então que desci as escadas até ao areal. Queria sentir aquele frio do contacto dos meus frágeis pés com aquela água viajante e cenário de tantas histórias. Queria sentir que ainda estava viva. Queria sentir um arrepio em cadeia percorrer-me.
Depois de tanta quimioterapia e radioterapia decidi que desta vez vou eu escolher e administrar o meu próprio remédio. Desde pequenina que a mamã dizia: "O que arde, cura" então, só espero que arda. Porque sufoca, juro que sim, saber que o corpo de uma pessoa se transforma num laboratório de experiências químicas à espera de resultados físicos.
Já junto à beira-mar sinto-me uma perfeita criança cujos medos não param nem as consequências detêm. Começo a correr contra aquelas ondas até ficar com a água pela cintura. E como está gelada a água! A água que já tirou o ar a muitos, e já fez naufragar outros tantos agora dá-me a vida que guardou daqueles que aqui a perderam. É como se injectasse uma injecção de adrenalina pelas minhas veias, que me faz reagir, acordar. É como se todos os momentos que estavam perdidos por aí, meios soltos, meios a divagar, se juntassem e começassem a tomar um rumo ou a fazer sentido. Pela primeira vez desde há muito sei que vou fechar os olhos hoje e que não vou ter medo de não acordar amanhã.

Abandono então aquele mar e com as roupas todas molhadas vou saindo, pé ante pé, sozinha… mas segura de mim mesma. Segura de que por mais que procuremos, por mais caro que seja nada, mas mesmo nada, consegue superar um novo fôlego. Nada consegue superar a alegria de um novo começo.

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